Resenha: documentário "O Dilema das Redes"
- Mackson Douglas
- 15 mar 2024
- 3 Min. de lectura
Actualizado: 15 mar 2024

O documentário “O Dilema das Redes” fala sobre o poder de manipulação que está presente nas mídias digitais que usamos diariamente. De produção estadunidense, dirigida por Jeff Orlowski e escrita por Orlowski, Davis Coombe e Vickie Curtis, o filme foi lançado pela Netflix no dia 9 de setembro de 2020. Ele aborda o papel das redes sociais e os danos que elas causam à sociedade, além das novas maneiras de controle que surgiram a partir da coleta de dados pelas big techs.
O filme mostra a manipulação que os usuários das redes sociais são submetidos para proporcionar ganho financeiro às empresas com o capitalismo de vigilância e as técnicas de mineração de dados. Também é discutido sobre cada elemento do design das redes que contribui para o vício dos usuários, o impacto na saúde mental de adolescentes, a disseminação de fake news com teorias da conspiração, além de impactar também na decisão política de cada pessoa.
Através de entrevistas, os funcionários de grandes empresas de tecnologia, como Google, Instagram, Facebook, Twitter e Pinterest, revelam como é o ambiente de trabalho dessas empresas e sobre a implementação de algoritmos e as estratégias de engajamento que são obtidas dos usuários por meio das interações que eles têm em suas plataformas. A forma que os dados são absorvidos, traz à tona a questão relacionada à privacidade dos usuários, já que não há uma transparência de como eles são coletados e estão sendo usados.
A frase “Se você não está pagando pelo produto, então você é o produto” do jornalista americano Andrew (Andy) Lewis ressalta, no documentário que, quando um serviço é gratuito, o consumidor pode ser comercializado como produto aos anunciantes. Tal prática é comum em plataformas que coletam dados dos usuários para direcionar publicidade.
Em relação a prospecção de público-alvo com a venda da atenção, a utilização dos algoritmos é positiva tanto para o produtor, como também para o cliente que está recebendo um assunto de seu interesse. Isso cria um relacionamento com a própria plataforma por otimizar os conteúdos para cada usuário, mas ainda não se sabe até que ponto se utiliza dos dados para tal prática. Sobre a confiabilidade dos dados utilizados pelas empresas de tecnologia, Dijck reflete:
[...] As empresas e companhias de dados são, por sua vez, simultaneamente concorrentes e aliadas quando o objetivo é conquistar e manter a confiança dos usuários. (...) O problemático nessas formas institucionais de dataísmo não está apenas no fato de faltarem esclarecimentos sobre os critérios do algoritmo utilizados (...) mais questionável é que os contextos nos quais os dados foram gerados e processado – tanto em plataformas comerciais quanto de instituições públicas – parecem ser intercambiáveis (DIJCK, 2017, p. 49-51)
É importante considerar a reflexão feita por Dijck ao questionar a confiança nas plataformas e no processo de dados extraídos por elas, mas não quer dizer que o algoritmo seja um vilão, pelo contrário, ele está presente para ajudar o usuário a receber conteúdos que são de seu interesse. O algoritmo foi criado para otimizar a experiência de cada pessoa. Ninguém quer ser impactado com um tipo de conteúdo que não é de seu agrado.
O problema que as big techs encontram neste momento é de se adequar seguindo uma regulamentação que, consequentemente, causará perda econômica. Além disso, há também o possível desuso da plataforma por parte de usuários conservadores que detestam ter contato com assuntos progressistas, por exemplo, já que assuntos que não são do seu interesse estarão em sua timeline.
Atualmente, as empresas de jornalismo — as quais não são remuneradas pelas plataformas —, dependem das redes sociais para distribuir notícias devido a rapidez e alcance, essa dependência, muita das vezes, pode impactar na qualidade da informação. Os órgãos de imprensa sentem uma pressão para publicar conteúdos que possam viralizar ao invés de transmitir algo com precisão e profundidade. Por consequência, isso pode prejudicar a credibilidade do jornalismo e a capacidade do público de formar opiniões verídicas através das informações.
Em síntese, a regulamentação das big techs é importante para garantir a proteção dos dados dos usuários e assegurar a transparência das operações feitas pelas grandes empresas de tecnologia. Além disso, é preciso haver fiscalização nas atividades suspeitas dos usuários para ter um controle maior, já que a polarização no mundo está crescendo devido às fake news e, uma remuneração das atividades jornalísticas nas plataformas, é criar um elemento decisivo para a formação de um ecossistema amplo fundamental para a manutenção da democracia.
Referências:
DIJCK, José Van. Confiamos nos dados? As implicações da datificação para o
monitoramento social. São Paulo: MATRIZes, 2017. pp 49-51.
Jeff Orlowski. (2020). O Dilema das Redes. [Netflix].




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